Em Busca do Mercado Nacional de HQS

Fonte ig
O paraibano Mike Deodato, de 52 anos, esteve na primeira leva de artistas a conquistar espaço na gringa. Ele assinou, em 1993, a arte das revistas da Mulher-Maravilha, uma das menos vendidas da DC. "Eu nem gostava muito da heroína, mas queria fazer algo para a DC.”
Na época, ele mandava os desenhos via fax e não tinha computador para colorir as páginas. "Fiz tudo à mão, mas depois de três números a vendagem triplicou.” Depois de terminar o arco pelo qual era responsável, seu passe foi disputado. "Mas assinei com a Marvel em 1995 e estou lá até hoje.”
Na época, quem arranjava os contatos para os brasileiros era a agência de talentos Arts & Comics. "Helcio de Carvalho e o Dorival Vitor Lopes foram os grandes responsáveis", explica.
Mais de 20 anos depois da estreia de Mike, os artistas do País continuam se destacando. Fábio Moon e Gabriel Bá ganharam em 2011 o prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos, de melhor minissérie por "Daytripper". No mesmo ano, Rafael Albuquerque também levou o prêmio de nova série por "Vampiro Americano".  Mas, além deles, a colorista gaúcha Cris Peter, 31, se tornou, em 2012, a primeira brasileira a ser indicada ao troféu pela pintura de "Casanova". "Fiquei impressionada que meu trabalho chamou a atenção.”
A geração de Peter, Moon e Bá, no entanto, teve uma trajetória diferente da dos anos 1990. "Fui fazendo contatos pelo meu blog internet, em convenções de quadrinhos", conta.
Com trabalhos para a Vertigo, selo adulto da DC, e outros para a Mavel, a artista explica que a "máquina", como ela chama o mercado editorial americano, é caótica e pode atrapalhar a criatividade do quadrinista. "Você precisa entregar 26 páginas por mês, então automatiza o trabalho. Minha arte mesmo é prejudicada pelos prazos apertados", afirma
O curioso é que, segundo ambos os quadrinistas, o respeito pelos deadlines é o grande diferencial dos brasileiros. "Além do talento, nós somos muito profissionais", diz Deodato. "E o estilo brasileiro atrai os americanos por sermos muito influenciados pelas revistas de super-heróis", completa Cris, mas ela ainda afirma: "O brasileiro não é mão de obra barata porque o preço é tabelado".
HQ brasileira em seu melhor momento
Por isso, quadrinistas do país andam cansados de entregar páginas e páginas para a Marvel e DC Comics e estão mirando seus trabalhos autorais em um alvo muito mais próximo: o público nacional.

"Em 52 anos, nunca vi melhor momento para lançar trabalhos autorais", pontua Mike. "Quando comecei, no começo dos anos 2000, não existia mercado de quadrinhos no Brasil e agora podemos dizer que sim", conclui Peter.
Segundo eles, o carro-chefe desta transformação do cenário nacional tem nome e sobrenome: Mauricio de Sousa. "Muita dessa influência boa vem da MSP", comenta a colorista gaúcha. "O Mauricio é o quadrinista mais bem-sucedido do Brasil e está liderando o mercado novamente", observa Mike. "Está mostrando que dá para fazer sucesso fazendo quadrinhos adulto.”
De acordo com Sidney Gusman, o homem por trás das graphic novels da MSP, o objetivo da série era mesmo aquecer o cenário do país. "Se eu falar que foi uma surpresa, estou mentindo", ri o editor. "A maior parte dos leitores de quadrinhos do Brasil só lê Mauricio e muitos deles estão lendo graphic novel pela primeira vez.”
Jornalista por formação e um grande fã das histórias sequenciais, Sidney acredita que a HQ do Brasil só tende a ganhar mais espaço. "Ainda não temos um mercado formado, mas há muito potencial", fala. "Os autores independentes são os grandes beneficiados. Há muito talento brasileiro pronto para ser publicado. As editoras precisam dar mais espaço para eles. Precisamos colocá-los nas livrarias e, principalmente, nas bancas".
Mike Deodato que, com mais de 30 anos de carreira, está prestes a lançar seu primeiro álbum autoral, "Quadros", resume o sentimento de muito veterano: "Queria estar começando agora.”

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