Dies Irae - Resenha HQ nacional


 Quadrinhos nacionais sempre surpreendendo com grandes talentos mesmo num cenário tão difícil - veja nossa resenha sobre a obra Dies Irae...


Lançada em formato digital em 2014, dividida em 8 partes, a HQ idealizada por um coletivo de quadrinistas gaúchos (o Tesla) ganhou uma caprichada versão encadernada a qual vamos comentar nesse post. O RS alias é um grande centro de consumidores de quadrinhos, conta com uma mini comic-con que este ano teve Peter Milligan e David Loyd  - e também é um expoente de talentos como Rafael Grampá e Rafael Albuquerque. Portanto não é sensato menosprezar o trabalho independente e suado dos nomes que estão lançando-se no mercado nacional.

Alternam-se no comando de Dies Irae os artistas do coletivo Tesla- Rafael Rodrigues, Frank Tartarus, Adan Marini, Thiago Danieli e Luciana Lain.

Sinopse - "Numa época onde os limites entre o real e virtual são frágeis, deuses de diversas culturas da raça humana caem sobre o planeta, colocando em xeque a realidade como a conhecemos."


A primeira coisa a mencionar dessa edição é o zelo da publicação, antes mesmo de abrir o encadernado duas coisas chamam a atenção -uma capa espetacular em alto relevo com a ilustração de alguns deuses por entre as letras do título principal. E o título é outra coisa que chama a atenção, bem pouco convencional, a aposta foi em latim 'Dies Irae' (Dia de Ira), que também é um famoso hino gregoriano que tem em sua letra conexão com o quadrinho:

Dia da Ira, aquele dia
Em que os séculos dissolver-se-ão em cinza, (...)
Quanto terror está prestes a ser,
Quando o Juiz estiver para vir

 Sem dúvidas a primeira coisa que você quer fazer é abrir a edição, ao se deparar com essas informações primárias visuais e textuais. Mas não se trata de uma história padrão mainstream, mesmo que beba da fonte visual do gênero herói, o que temos aqui é muito mais próximo da linha Vertigo da DC. A história tem um cunho filosófico, religioso e uma temática incessante em reflexões que qualquer um de nós já deve ter feito sobre - origem de tudo, crenças religiosas, seres superiores e etc.
Ao ler os primeiros capítulos de DI pensei logo em ter encontrado um quê de Invisíveis de Grant Morrison - que é um tremendo retalho do conhecimento absurdo do autor sobre teologia, ufologia, religião, tantrismo e etc.



 Sim cara, é uma chuva de divindades caindo sobre a terra, louco não? A abordagem inicial é focada na forma como nós (reles mortais) encararíamos esse acontecimento - e esse é o trunfo que irá te prender a leitura. Será que Ganesha é mais importante que Exu? Existe um Deus único?  Como será o discurso dos grandes líderes religiosos da humanidade? Até mesmo o Estado Islâmico é abordado. aqui. Enquanto a trama mostra o contexto militar/governamental e as preocupações de minimizar o impacto dos primeiros acontecimentos.
É muito interessante como os autores conseguiram uma história que permite se aventurar sobre arte, filosofia, religião, fanatismo, teoria da conspiração. Podemos ver no Brasil uma clara referencia ao momento de protestos cada vez mais comuns nos últimos anos. Além de uma acertada indicação da importância da informação digital, aqui disseminada em memes pelo grupo 'Anomalous' (sacou a referencia?). Acho muito válido o embasamento tecnológico em quadrinhos, recurso muito bem usado por Warren Ellis em Freqüência Global por exemplo.

No melhor estilo Do Inferno de Alan Moore, as chamadas de capítulos trazem um pin up com uma explicação literal do título. Nos Pin UP inclusive pude sentir na mão do artista Adan Marini algumas homenagens, numa emulação direta a Frank Miller em Sin City (outro desenhista do grupo Frank Tartarus tem uns pin up do Miller), posteriormente um pouco de Fabio Moon em Umbrella Academy (num capítulo que envolve violinos ). O próprio recurso do debate de TV usado emblematicamente em Cavaleiro das Trevas - também está na edição. E como citamos Grant Morrison e Invisíveis, quem sabe o King Mob não faça uma ponta...



Desenho de Frank Tartarus

Muito interessante ressaltar que um dos escritores, o Rafael Rodrigues é formado em Filosofia, o que deve ter exponencialmente direcionado os roteiros do quadrinho. Definitivamente é uma ótima leitura e de uma ótima HQ feito por compatriotas, com refino e zelo. Uma ótima colorização, um índice de todos os Deuses que aparecem na trama, comentários dos autores e mais cards dos Deuses fecham o pacote. Leitura para maiores de 18 anos, e qualquer um que queira se aventurar no mundo fora do contexto dos heróis de cueca por cima da calça.
Vale cada centavo !!



Preço de capa R$ 25,00
104 páginas
Capa Mole
Entre os dias 8 e 11 de setembro os autores estarão na Bienal do Livro em Curitiba para venda e divulgação da HQ.
Mais sobre o coletivo TESLA
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