Resenha: Um passeio no Jardim da Vingança



Um livro eloquente que usa ficção científica para criar a base de uma ótima trama de suspense e drama.



   A produção nacional de histórias de fantasia,  vista ainda como tabu no Brasil, vem crescendo em muito no que tange literatura. E não é difícil encontrar bons trabalhos de autores que se desdobram para conseguir a publicação de seus títulos. Fico satisfeito de abrir esse post sabendo que Daniel Nonohay perseverou na publicação desta trama (veja a entrevista dele ao HQFan aqui)


'Um passeio no jardim da vingança' é um passeio no jardim da ficção científica, nos aspectos humanos, na corrupção humana, na parte podre, na sede de poder desenfreado. Isso tudo recoberto por uma camada de suspense que incita a virada de página.
A trama se passa em uma Porto Alegre (RS) futurista, no ano de 2038. A evolução tecnológica mudou tudo que conhecemos sobre o uso de próteses cibernéticas, neurochips, medicamentos e etc. Além disto a mudança social aflora ainda mais as divisões de grupos religiosos, terroristas e as próprias divisões de classe. Entrementes, Ramiro, um advogado de meia idade luta para dar rumo a sua vida.


Por si só é difícil implementar dentro de uma trama amarrada, tantos aspectos de um cenário futurista, uma por ser algo retratado habilmente ao longo de anos em outras mídias (o que amplia nossa visão do assunto) outra porque é preciso dar verossimilhança. Aqui está algo que nos integra ao livro, a percepção de Daniel casa bem as duas coisas, provavelmente um fã assíduo de cultura pop ele usou seu conhecimento para criar uma atmosfera que lhe serve o propósito da trama de maneira única. Dentre as mudanças tenológicas que podemos exemplificar temos as conferências virtuais onde os juízes fazem suas audiências - algo que se pensado atualmente já é uma tendência tecnológica por questão de custos e etc (o próprio Moro utilizou deste recurso para colher depoimentos em juízo). Mas Nonohay amplia o leque, e aqui todas as falas são automaticamente computadas nos tribunais. Além deste avanço, outro elemento muito bem utilizado é a rede de depoimentos instantânea compartilhada, uma espécie de acervo num banco de dados em nuvem (na internet) acessada por dispositivos geralmente neurais.

Ao me deparar com isto no texto, de pronto me veio a mente Spider Jerusalém em Transmetropolitan, onde Warren Ellis usa ideia semelhante voltado a disseminação de notícias jornalísticas. Aliás Ellis, um grande autor de ficção, é mestre em usar tecnologia em suas tramas -além de Transmetropolitan poderíamos destacar Frequência Global que também bebe desta fonte.
Dada esta ambientação da sua trama e vamos desfrutar melhor do livro. Ramiro, o protagonista, vale-se constantemente de um chip que lhe serve de apoio.
Aqui, outro elemento muito bem embutido a narrativa é o uso desenfreado de drogas e medicamentos de maneira nociva por parte da população, orquestrados pelos planos de lucro a qualquer custo de grandes produtoras. Essas subtramas são levemente adicionadas ao plano geral da história, nos levando a ter mais o que discutir além do destino de nosso personagem central.

Como será o uso de tecnologia no futuro?  E quanto a contribuição tecnológica pode afetar diretamente a sociedade na qual vivemos e em que aspectos ? Recomendo que leiam a resposta do próprio Nonohay na entrevista mencionado nesse post.
Voltando ao livro, a história não é limitada, ela é um conglomerado de ideias que visam esclarecer mais da visão futurista do autor e acima de tudo servir de base para suas conclusões. Apesar da fantasia, a história mantém-se com enfoque humano. O protagonista Ramiro, é acima de tudo um homem com problemas no seu casamento, que está no piloto automático no trabalho, que desistiu de um alto cargo na sociedade em que faz parte e que estava passando horas ao invés de viver.
Tudo isso muda quando num ataque terrorista ele quase morto entra em coma. A possibilidade dessa segunda vida, mexe extremamente com o brio desse advogado que agora tem uma batalha pessoal para travar, a de acertar suas decisões e diminuir o peso de seus erros passados.

Nonohay acerta o alvo aqui, se em Transmetropolitan temos um Spider Jerusalém conhecendo as ruas e se reinventando como profissional, aqui temos um drama com um número maior de matizes da vida do protagonista. Ele precisa saber como vai agir com os demais sócios e como isso será encarado, como vai encarar as dificuldades do seu casamento e etc.
Um passeio no jardim da vingança é acima de tudo uma história sobre humanidade, a sua maneira o autor denota que mesmo tecnologicamente evoluído o potencial humano ainda é o norte que movimenta a sociedade. Que nem tudo pode ser mecânico, nem tudo pragmático, que temos que nos reinventar. Assim como é uma critica planejada de como as decisões humanas é que influenciam no mau uso da tecnologia. Bem como nós mesmos como sociedade é que incitamos o ódio separatista e criamos armas de genocídio em massa, destruímos lares, matamos inocentes - por ganância, por território, por divergência política, por crenças e etc.

Outra coisa que me chamou muito a atenção é que o autor diminui essa metáfora para seu próprio universo contido, aquele que ele conhece, juiz de trabalho por profissão Daniel conhece como ninguém aspectos da formação de um advogado. E existe a ganância, a manipulação, a mentira, numa visão muito amarga e ácida. O seu estilo de escrita é detalhista, e ele se preocupa em descrever o máximo cada cena com cada tipo de fragmento.

Para fechar esse post, a edição da Novo Século é muito bonita. A capa lembra o crânio de um T850 (da franquia Exterminador) destacando um chip neural.

Se você curtiu esse post garanta seu exemplar e conheça mais do autor.

Página do autor - http://www.danielnonohay.com.br/
Entrevista HQFan com Daniel Nonohay
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Novo Século - Talentos Nacionais



guest author area 51 Erick Cavalcante
Poeta amador, músico frustrado, colecionador de HQ,s, roteirista de histórias nunca lidas.Vive recluso em Asgard tomando hidromel e arquitetando posts que não dão views. Twitter/Facebook