Como Guerra Civil salvou a Marvel nos Quadrinhos


Guerra civil foi uma saga amada, tolerada e odiada (por um grupo bem pequeno de leitores, alias eu só conheço uma pessoa que odiou).

O conceito em si de guerra civil é algo muito antigo, o tema da lei de registro existe em historias da década de 60 e 70, apesar de ser mais conhecido na década de 80 com o futuro diatópico dos mutantes.

Apesar de ser um tema meio batido no universo Marvel e até em outras editoras o que tornou a saga única foi sua abordagem e sua tentativa de trazer um contexto mais elevado dentro dela, apesar de alguns acharem que não foram bem sucedidos nessa tentativa, para maioria dos leitores funcionou.


Parte 1
A Luta financeira

Muitos podem não saber, mas a Marvel teve muitos altos e baixos financeiramente, as vendas de direitos de imagem para o cinema de seus personagens não foi a toa, foi uma tentativa de manter a editora funcionando com caixa.

Em 2006 quando a saga saiu pela primeira vez em muito tempo a Marvel se viu atraindo novos leitores através de uma nova dinâmica, mais atrativa em conteúdo e menos forçando a barra em polemicas. 

As historias refletiam o clima de paranoia dos americanos pós 11 de setembro com seu ato patriótico se utilizando do ataque a Stanford e o ato de registro.

Uma das maiores sacadas foi não utilizar uma forma narrativa batida  que foi utilizada na maioria das sagas que era um vilão aparecer, criar uma ameaça, os heróis o derrotarem e mais tarde tudo ficar bem.

Eles prefeririam uma narrativa onde não houvesse vilões de fato, mas apenas pessoas com visões diferentes de mundo, ambas acreditando que eram os mocinhos.

A própria Marvel foi a responsável por sua queda de vendas anteriormente através de seus arquétipos destruídos, no seu inicio até a década de 80 a marvel tinha um foco editorial muito claro.

Por exemplo, o Homem aranha era para atrair os leitores mais jovens, o quarteto fantástico era uma equipe estabelecida e uma família heroica, o grupo funcionava para apresentar novos personagens e historias de ficção cientifica, já os vingadores eram a elite de grupo de super heróis e suas aventuras ecoavam modificando a cronologia, com a chegada dos X-Men anteriormente cancelados a popularidade tudo iria mudar.

A Marvel deixou de focar em seus outros personagens e focou somente nos X-Men enchendo o seu mundo de mutantes devido ao sucesso dos mesmos em outras mídias que alavancou seus quadrinhos ( uma historia dos X-Men vendia em media 8 milhões de exemplares), mas é claro isso nunca duraria para sempre e infelizmente a editora não se preparou para isso.

Com a saturação dos X-Men veio a queda da Marvel que não estava preparada para voltar ao foco a seus outros personagens, isso levou a coisas desastrosas como os Heróis Renascem.

A Marvel que antes tinham como característica a interação entre diferentes tipos de personagens que se encontravam e tinham conflitos entre si agora parecia mais uma editora genérica e sem foco, dando assim espaço para editoras como a Image.


Parte Dois
Voltando ao Passado
Quadrinhos são cíclicos, não importa o quanto alguém pode tentar lhe convencer, os quadrinhos não mudam, na sua própria origem eles tentavam fazer coisas polemicas para atrair novos leitores, tentavam ser agradar ao máximo a visão politica predominante de sua era não importa qual fosse, mas felizmente eventualmente ela voltava as suas origens, aos arquétipos primordiais que foram responsáveis pelo sucesso de seus personagens principais.


Como foi dito antes o Ato do registro e controle de heróis é algo intrínseco no universo Marvel e outro fator primordial era a desconfiança do governo sobre os heróis.

Sempre focando que não era que o governo fosse mal, mas que o conflitos de ideias que o anarquismo heroico poderia criar era tão nocivo quanto positivo em sua existência.

Super heróis são bombas atômicas ambulantes e precisam ser controladas, essa era uma das ideias do universo Marvel na sua raiz, esses conflitos faziam a Marvel ser mais sombria que a DC as vezes, ironicamente no cinema os universos seguiram caminhos opostos aos seus quadrinhos.

Com uma sociedade pós 11 de setembro e a criação do ato patriótico, o tema de invasão de privacidade para ajudar o governo a proteger as pessoas nunca foi tão relevante, o ato de registrar herois parecia muito com as novas leis autoritárias criadas com o ato patriótico para tentar proteger melhor a sociedade.

O Ator de registro nos bastidores era apoiado por Senhor Fantástico, Homem de ferro e Hank Pym, ou seja, as mentes cientificas mais brilhantes do universo Marvel, já seu maior opositor era Capitão América o coração e moral do universo Marvel.

Porem o ato de registro em seu modo que foi criado foi realmente algo único, com fundamentações boas conseguiu separar todas as comunidades heroicas em lados.

Isso levou a algo mais profundo no questionamento do leitor que agora não se perguntava quem venceria, mas sim quem estava certo em suas crenças.

A Saga além de um sucesso de critica foi também um sucesso de vendas, em maio de 2006 quando foi lançada atingiu disparado o primeiro lugar de vendas, vendendo quase 300 mil exemplares em media.

A Saga também tirou o Homem de Ferro da posição de um Herói B para um dos mais importantes personagens do universo Marvel, que acabou sendo tanto amado quanto odiado nessa saga.

O Sucesso de Guerra civil se deve ao fato de discutir um tema polemico na nossa era atual, que é claro o conflito existente entre liberdade e segurança, vale a pena sacrificar nossa liberdade por mais segurança? Devemos ser tão cegos em nossas crenças que devemos considerar inimigos aqueles que pensam diferente de nos? Será que devemos sacrificar nossa liberdade dando mais poder ao Estado em troca de um maior senso de proteção pelo mesmo?

Se esse debate foi intencional ou não nunca saberemos, mas o que sabemos é que a profundidade das repercussões dessa saga como por exemplo o Homem Aranha revelando sua identidade ou a morte do Capitão América mostram apenas a contextualização que a Marvel conseguiu voltando novamente a ser um mundo cujas historias conseguem atrair os leitores mais antigos sem acreditar que era necessário sacrificar eles para atrair novos leitores.

Isso se deve a sua habilidade de não precisar criar novos personagens, mas usar os personagens que já existem para criar boas e atrativas historias, sem precisar criar grandes polemicas.

Muitos leitores as vezes reclamam de descaraterizações de personagens, mas o que aconteceu foi justamente ao contrario, voltar aos arquétipos originais há muito esquecidos, o Capitão América sempre foi a bussola moral do Universo Marvel, já o Homem de Ferro sempre teve uma personalidade dúbia, sempre acreditando que era inteligente o suficiente para criar uma forma de resolver os problemas, se sobrava inteligência para Tony Stark lhe faltava a sabedoria para saber como utilizar ela.


Espero que tenham gostado e gostaria de saber a sua opinião sobre essa saga

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