[+18] Integrante da equipe de "Zombio 2" comenta curiosidades das gravações

Denominado pelo próprio autor como uma gorechanchada, Zombio 2 é um filme de terror independente brasileiro, filmado em Santa Catarina, no ano de 2013, que tem se tornado cult e ganhado uma grande quantidade de fãs, devido a veiculação em festivais, divulgação via Internet e redes sociais. Idealizado por Petter Baiestorf, cineasta brasileiro acostumado a trabalhar com poucos recursos e muita criatividade, é uma de suas produções mais esmeradas, contando com uma equipe de 72 pessoas, entre eles, Carli Bortolanza, que participou das filmagens como diretor de produção, assistente de direção, auxiliar de maquiagem e também como ator, encarnando "zumbi" e "raivoso". Tivemos uma longa conversa com ele... 

Cena de Zombio 2: criaturas atacando!!
O tema "zumbis" tem se tornado cada vez mais recorrente na cultura pop, seja em filmes e seriados ou nos games, que em alguns casos retratam as criaturas como cartoons aparentemente inofensivos, como na franquia Plants vs. Zombies, por exemplo. Sobre essa massificação, Carli Bortolanza comenta:  Zumbi é um tema que sempre ficará na “moda”, assim como vampiros e lobisomens. A questão é se é “pop” e ou se está “saturado”. O zumbi pop, o vejo como os “modernos” vampiros; são limpos/“bunitnhos”, lembrei-me agora do “Izombie” e “In The Flesh”, esses parecem pop (não sei se são), o “The Walking Dead” (parece saturado/famoso?) tem algumas maquiagens legais, mas pessoalmente não gosto, os atores são “burros” e há pouca criatividade. Acredito que, por exemplo, para fãs dos filmes de zumbis de George Romero estes não irão gostar dos zumbis pop, assim como fãs de zumbis pop não irão gostar do “Re-animator” de Stuart Gordon. Fãs de zumbis irão assistir todos e até gostar de alguns. O que faz e que muda o conceito é a história ao qual estão inseridos e o público que os atinge. Cito isso em virtude dos filmes de zumbis com temas diferentes, “Todo mundo quase morto” e ou o “zoombies” e ou ainda o lindo “Zombie Strippers”. Como maquiador e fã, gostaria que houvesse muito mais. E a questão de saturado, saturado todos estamos com filmes sem “personalidade”, sem criatividade, sem histórias originais, sem conteúdo novo, pois só remake, nueva versión, refilmagens e muitas vezes sem ser. Afinal qual é o filme que jovens vão para uma cabana e morrem? E qual o filme que há um zumbi que se ajoelha de dor pós chute nas partes baixas e que não morre com uma faca cravada no cérebro? (dica: o ator sou eu).

 Carli Bortolanza, videomaker e Especialista em Filosofia e Psicanálise

Sendo um filme independente, obviamente Zombio 2 não contou com recursos cenográficos grandiosos, porém com produção profissional. Carli explica como foi: Assim como todos os filmes, a produção é dividida em 03(três) etapas: A pré-produção se centralizou diretamente nas funções de cada um, até pelo fato de ser muita gente de fora, de várias cidades e Estados, e foi meio que pensado pelo próprio diretor, pois como ele também escreveu o roteiro, ele tem toda a cena/imagem na cabeça. Em conversas com as pessoas que ele convidou para participar, foi dialogando com as mesmas para delega-las as funções e estes emitindo suas opiniões referentes as ações. Nos dias das gravações, foi passada a sequência das cenas a serem filmadas e ai a correria começou, já que como sempre, o roteiro é apenas um dos caminhos a serem seguidos, e as mentes devem estar com toda a polpa de criatividade ao máximo, para que, diante das necessidades, criar e dar continuidade as gravações, sem parar, pois se parar gera despesas e dinheiro não se tem, ou tem muito pouco. Nessas gravações, o atraso de um ator, a falta ou estrago de um equipamento faz mudar as sequências de gravação, alongando ou cortando cenas. A lei de improviso gerada pela falta de recurso (todos os recursos, dinheiro, pessoal, equipamento,...) não impedem a realização, mas tornam o filme diferente do roteiro original, sem perder o foco da mensagem que se quer passar. Estando no local, cada um vai exercendo suas funções e ai sobra o geral, o unir tudo e todos: Manter o bem de todos, como por exemplo, lavar as louças da alimentação ou até mesmo fazer a lista de marmitas que precisava pedir de manhãzinha, então precisava contar as pessoas que estavam e ou que viriam no dia, como por exemplo, os câmeras (Sanzio Machado, Leo Pirata e Flávio C. Von Sperling de MG) eles estavam preocupados com o que estavam ali pra fazer e fizeram muito bem, mas o todo que precisávamos organizar. Lógico que há participação de todos, todos ajudavam diante do possível, mas essa junção é necessária. De meu ponto de vista, há 04(quatro) grandes preocupações na produção. O que e como já foi filmado; O que e como esta sendo filmado; O que e como precisa ser ainda filmado e o “descanso” entre as três primeiras. Descanso aqui é entendido com, alimentação, banho, sono, café, deslocamento, compra de materiais, entre outras coisinhas. Quer dizer, enquanto se fica de olho no que foi filmado, e no que esta sendo gravado, vai ajudando a montar/maquiar o que será filmado. Nessas produções onde todos estão ali para o bem maior que é o filme pronto, todos colaboram, todos ajudam, todos dão o máximo de si. Sabemos que toda regra é uma exceção, mas ai vem as mudanças, os cortes, a criatividade e o improviso.


"Marcha Zumbi" no interior de Santa Catarina (cena do filme)

Criar a caracterização ideal para os personagens parece ser tarefa simples, porém necesitou do trabalho de diversas pessoas. Carli explica: Bem, primeiramente havia sido convidado para fazer as maquiagens, até por ter feito as do Zombio 1, e eu prontamente aceitei, mas ai o diretor (Petter Baiestorf) me avisou que havia fechado com outro, Alexandre Brunoro, do Espírito Santo. Eu ainda brinquei com o diretor; “- ainda bem, pois estou meio enferrujado para realizar tanta maquiagem”; mas me coloquei a disposição para o que precisasse. E nesse meio tempo entre me convidar e convidar o Brunoro, havia me passado que as maquiagens dos zumbis eram para ser no estilo do Zombio 01 e a dos raivosos conforme as maquiagens do filme Raiva (outro filme nosso) mas que a Leyla Buk iria cuidar dessa parte com umas técnicas novas (pra mim). O que resultou ou deu inspiração para as maquiagens terem ficado como estão, só a mente dos maquiadores responsáveis (eu apenas ajudei um pouco a aplicar) com a mente do diretor para saber.


 No momento das filmagens, o diretor Petter Baiestorf, acompanhando os trabalhos.

O cronograma de filmagens durou 23 dias, os quais Carli Bortolanza tem boas recordações: Todas as gravações há várias curiosidades, todas elas podem ter sua relevância para o qual participa, mas a que gosto de comentar que é mais focado no conjunto e não na percepção pessoal, apesar de que contarei como protagonista da situação: Uma boa parte da equipe, havia passado em torno de 26 horas direto de gravações, e estava amanhecendo, quando demos uma pausa para dormir e retornaríamos logo após o almoço, então basicamente teríamos 04 horas de sono e ai algumas pessoas da equipe já teriam que levantar para deixar o cenário pronto, assim como as maquiagens e tal... A parte engraçada é que enquanto alguns trabalharam direto, outros estavam com tempo de folga e estavam curtindo o que a locação do cenário poderia oferecer de melhor e outros estavam chegando para as gravações. Apenas 02(duas) horas depois que havíamos parado e ido dormir, algumas pessoas chegaram no set para as gravações e encontraram todos dormindo e ficaram em silêncio. Nos acordarmos, porém depararam com algumas pessoas que estavam “vindo da balada” e estavam empolgados, um chicoteando o outro, lógico que acordei com as chibatadas e já sai da barraca furioso, (pois estava muito cansado, pude dormir e não me deixaram), cheguei lá e vi o que hoje acho uma cena linda, principalmente para se ver depois de muitas horas de trabalho e pouca descanso: um casal, na frente da casa/cenário; enquanto um mostrava a bunda o outro chicoteava e assim se revessavam, até eu estragar a brincadeira e eles foram dormir! Fizemos café com a ajuda dos que acabaram de chegar e começamos a “organizando” o que dava em silêncio e na primeira hora da tarde, começamos as gravações e rodamos gravando direto, por mais 38 (trinta e oito) horas.



Equipe e atores já caracterizados durante os trabalhos

Zombio 2, assim como seu antecessor, é parte da vasta filmografia da Canibal Filmes, fundada por Petter em conjunto com um grupo de videomakers, em 1992. Nesta mesma época, também editavam diversos fanzines, que assim como as cópias dos filmes em VHS, eram distribuídos para todo o mundo via Correios. Acredita-se que Petter e equipe tenham filmado mais de uma centena de produções. Atualmente continuam divulgando seus trabalhos recentes e antigos via Internet, em lojas virtuais, físicas e em festivais por todo o país. Petter Baiestorf está no ar pelo canal Space, com um episódio de As Fábulas Negras, juntamente com José Mojica Marins, Rodrigo Aragão, entre outros nomes do terror nacional. Carli Bortolanza finalizou o curta Cão de Guarda, veiculado através do YouTube. Ambos trabalham em uma possível continuação para a história dos "zumbis brasileiros".

Fotos: Andye Iore
Informações cedidas por Carli Bortolanza

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