Brigando por papel


O Brasil de tantas diferenças como o nosso, mais do que foi, provelmente para nossos pais e avós, dadas suas limitações tecnologicas científicas, terreno fértil para o nascimento de muitas paixões. O cenário da crise política, que alimenta discussões de amor e ódio, mostra o quão passionais podemos ser. A liberdade de expressão , coisa que os saudosos da Ditadura instaurada em 1964 parecem não sentir falta, nos permite mostrar a todos as coisas que amamos e odiamos. A democracia dá voz também ao idiotas, mas é, sem duvidas, melhor que não dar a voz a ninguém. E num cenário de tanta transformação, uma paixão atravessa, ora mais silenciosa, ora mais gritante, os períodos pré e pós repressão. Direitas, esquerdas e centros tem algo em comum que diz respeito a todos nós: somos amantes de cultura pop. Lemos histórias em quadrinhos. Assistimos filmes. Ouvimos podcasts sobre o que lemos e assistimos e alimentamos essas paixões diariamente.

       O que conhecemos como cultura pop representa um aspecto do ser humano que o torna único: a capacidade de usar arte para transcender. Embora esta, hoje em sua grande maioria, reduzida a itens de consumo e muitas vezes sem profundidade intelectual, ainda é o que faz o cidadão comum "viajar" após um dia de trabalho. Chegar em casa, ligar a TV e assistir novela (sem juízo de valores, por favor) ou abrir uma revista em quadrinhos é uma fuga das nossas vidas medíocres. É um apelo ao fantástico para deixar nossas vidas mais interessantes do que pensamos que elas sejam. É a transposição para a vida adulta de uma coisa que fazíamos quando éramos crianças: a brincadeira. E brincadeira tem um papel fundamental na vida de uma criança. Brincar ajuda a criança a encontrar soluções para problemas sem que elas tenham de vivenciar situações reais dolorosas. Brincar prepara a criança, de forma discreta e divertida, para solucionar questões. É o cérebro propondo e solucionando desafios. É por isso que as histórias que consumimos, apesar de serem itens de consumo dentro de um contexto capitalista, tem sua relevância: nos propor questões, de forma indolor e divertida. É por isso que eu jamais vou entender o leitor de X-Men que age de forma preconceituosa. É por isso, pra me manter em exemplos simples e óbvios, que eu jamais vou entender o fã de Star Wars que pede intervenção militar ou vota naquele deputado do RJ quando o mesmo diz que colocaria a maioria ou todos os seus ministros, generais. Não há, da parte do grande público, a habilidade de se colocar no lugar dos personagens, de se imaginar protagonista de tais histórias, imaginar a dor dos processos de vencer os antagonistas e trazer isso para o mundo real. Assim como nem todo mundo se torna um psicopata jogando jogos de tiro, o que é bom, parece que quase ninguém é capaz de se tornar uma pessoa melhor assistindo a filmes e séries, o que é um fracasso desse tipo de cultura. Pior ainda, são capazes gerar conflitos por conta de personagens de papel. 

       Passar horas no Facebook em discussões intermináveis e cheias de ódio não significa que você é inteligente, significa, no máximo, que você não entendeu nada da obra que leu. Assim como discussão política, discutir cultura pop em tom elevado é uma disputa de poder entre dois cães de porte igual. Somos iguais, mas queremos nos apropriar de uma obra ou outra e a defendemos com garras e dentes, quando somos apenas consumidores. Brigamos por entretenimento. Ao invés de termos um tarde agradável, preferimos brigar por Batman ou Naruto. Só pra finalizar, citando uma animação da Disney a qual eu tenho apego, "Valente", as histórias contém a verdade, elas contém sabedoria disfarçada. Toda história tem sua moral, tida história tem sua mensagem. Que possamos usar isso não contra nossos amigos, mas que possamos usar isso em favor da nossa evolução pessoal e coletiva.

O que eu faço, nesta seção, é um convite à reflexão, toda vez que eu a postar, sobre o quanto nossa vida é afetada por aquilo que consumimos. E aí, tá dentro?

Discordando ou concordando, me segue lá no Twitter @Renan_Ishin