Entrevistamos Daniel Nonohay, autor do livro "Um Passeio no Jardim da Vingança"

O autor do livro Um Passeio no Jardim da Vingança, uma ficção científica futurista, Daniel Souza de Nonohay, é Juiz do Trabalho, e iniciou sua carreira de escritor aos 17 anos, escrevendo seu primeiro romance à mão, em dois cadernos pautados. Além dos romances, ele é autor de artigos técnicos, na área do Direito e políticos, publicados em livros, jornais e sites. Também organizou livros de coletâneas. Sua nova obra chega agora às livrarias de todo o país, e tem como cenário uma Porto Alegre de 2038, em uma realidade violenta e repleta de tecnologia. Ele conversou com o HQFan sobre o mercado e as perspectivas para o futuro. 
Sobre sua última obra, que aborda uma trama com temas um tanto inusitados na literatura de nosso país, perguntamos a Daniel o que ele acha da receptividade do público ante as obras nacionais no gênero ficção, no que respondeu: "Embora o Brasil tenha uma longa tradição de bons autores, há desconfiança do público com a literatura nacional. Esta desconfiança aumenta muito quando passamos para gêneros como fantasia, ficção científica, suspense ou terror. Os leitores não estão acostumados a associar o sobrenome Silva ou Souza a termos como “cyberpunk”. Este “receio” é compreensível. Praticamente toda a cultura pop que consumimos não é produzida aqui. Essa atitude de desconfiança somente vai ser alterada de forma gradativa, com um grande volume e sequência de bons trabalhos, como os do Fábio Moon, Gabriel Bá e André Vianco, com o suporte de meios de comunicação específicos, como a HQFan, onde os escritores, desenhistas, roteirista, etc., possam encontrar, divulgar e estabelecer o seu trabalho para o público alvo. Depois, parte-se para a conquista da indústria de entretenimento mainstream e do público em geral. A internet, neste processo, é um enorme facilitador. A divulgação de determinados trabalhos que há alguns anos era impossível, hoje é imediata e com um alcance que sequer se sonhava".



Atuando profissionalmente como Juiz do Trabalho, perguntamos a ele como essa atividade influencia sua maneira de escrever: "Escrever é grande parte do que faço para ganhar a vida. Óbvio que a escrita técnica é diferente, mas a tentativa de buscar clareza, lógica e precisão é a mesma, seja na sentença, seja em um suspense, seja em uma crônica. Como diz o Stephen King, escrita é telepatia. É o escritor tentando transmitir o que pensa para outra pessoa que está em outro local e noutro tempo. Assim, quanto mais precisa a escrita, melhor. Se conseguir isso sem ser chata, ainda melhor. Além disso, passaram e passam pelos meus olhos, nos processos, milhares de tragédias e comédias. Finais felizes e finais tristes. Histórias que servem como um manancial praticamente inesgotável para o escritor minimamente atento. Se eu escrevesse sobre algumas delas, o público certamente acharia o texto inventivo ou “forçado” demais. Como se diz, a realidade não tem compromisso com a coerência e os casos que analiso me lembram disso a todo momento. Se você é alguém que presta atenção ao seu redor, a realidade é um lugar incrível de se viver". 


Na mídia atual, crimes e violência "reais" tem um público bem abrangente, devido a programas televisivos como Investigação Discovery ou mesmo os jornalísticos da TV aberta. Fazendo uma análise do que é exibido na mídia, questionamos sobre a violência urbana no futuro: será que tende a aumentar, e ser "auxiliada" pelas ferramentas tecnológicas?

"A verdadeira questão que está por trás dessa pergunta tem cunho moralista e é realizada desde que convivemos em sociedade. A pergunta é, aproximadamente, a seguinte: “A produção cultural ou mesmo a conduta contrária ao usualmente aceito pode degradar os valores e piorar a sociedade?” Este questionamento foi utilizado contra a dança, contra obras literárias, musicais, histórias em quadrinho, videogames e inúmeras outras manifestações coletivas e pessoais no curso da história. Relembro que os quadrinhos já foram o grande vilão da degeneração moral da juventude americana. Os games são acusados de incentivar a violência. Ulisses, de James Joice, teve sua publicação proibida nos Estados Unidos. A mulher, em muitos países, não pode mostrar o rosto na rua, pois isso incentiva a libido masculina .... Há uma tensão, aqui, entre tradição e inovação. Em um país livre, lixos culturais tendem a chamar a atenção inicialmente e, aos poucos, caem no esquecimento ou se transformam em produto para poucos viciados. Não acredito em restrições ou censura à produção cultural. É ela que nos move para frente, como indivíduos e como sociedade. Se eu sou um adulto e quero ver um filme no qual o herói mata cinquenta inimigos com uma tesoura de unha, não há porque impedir. O mesmo se dá quando a pessoa quer ver um telejornal trash que glorifica a violência. Isto, talvez, seja exatamente a válvula de escape que aquela pessoa precise naquele momento. Claro que deve existir preocupação em se expor quem não está ainda maduro ou preparado para determinados consumos, como o de violência e sexo explícitos. Isso é algo muito mais difícil de se fazer hoje, com as diversas possibilidades trazidas pela internet. Há, ainda, diversas outras questões que se cruzam aqui. O uso indevido da imagem e a exposição danosa das pessoas envolvidas em alguns destes programas, por exemplo. Apesar de tudo, acredito que a curva da humanidade é ascendente em locais onde as pessoas podem se expressar e consumir cultura de forma livre. As ferramentas que te trazem o lixo também trazem o sublime e, no longo prazo, a tendência é o juízo crítico médio da sociedade se aprimorar."

Agradecimentos: Editora Novo Século
Imagens: Facebook

guest author area 51  Gisele Henriques
Administradora com MBA em Administração e Marketing, contabilista, jornalista, desenhista, locutora, podcaster, professora e graduanda em Artes, é uma criatura de extrema modéstia. É mãe de gatos imaginários. Twitter / Facebook